Rabiscando Vida

Leialti minimalista.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Visitantes desconhecidos.

Fico tão intrigado quando um deles comenta.
A bem da verdade, fico bem intrigado com gente vindo parar aqui vindo das vastidões internéticas.


Oi, Mariana, tudo beeeéim?
Quantos anos é que você teeeéim?
De onde é que você falaaaaa?
Será que você voltaaaa?

terça-feira, 5 de maio de 2009

Da musa que não inspira

Nos que tais de dias mais ingênuos (e mais felizes), escrevi eu qualquer coisa sobre musas inspiradoras que dormem quando lhes é conveniente, algo de concedido por uma noite, mera vontade de escrever, algum pouco conhecimento geral sobre cultura grega e uma amiga de muitos sorrisos e muito sono.

Idos os tempos, a amiga e um pouco da ingenuidade volto para me desculpar por algumas apropriações indevidas a todas as partes que possam ter se ofendido, a Calíope, suas irmãs, um velho amor e um pedaço de mim. As musas não estão relacionadas a inspiração, mas a memória. O eu de hoje não mais cobraria da musa aquilo que era dever da noite (a essa não preciso me desculpar, pois volta sempre), talvez pedisse a ela um pouco das idéias e acontecimentos partilhados durante o dia, que me recontasse-os para que eu pudesse, depois do esquecimento, recontá-los valendo-me mais de verossimilhança, do milhão de coisas que há de mais interesse que a verdade, esta é gratuita e ao alcance de todos, a recordação só aos que dormem ao lado da musa.

A noite está lá fora e sei que volta amanhã, os sorrisos quisera eu...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Onda

À meia dúzia de almas perdidas que batem as portas desse local abandonado e todas as outras que aqui chegarem por engano ou outro motivo venturoso: corram até a livraria mais próxima e procurem por um livro chamado Onda de autora coreana Suzy Lee, se vocês tem qualquer dúvida sobre os motivos de terem vindo a este mundo adianto que foi para ter a oportunidade de apreciar esse livro.

A Onda tem uma coisa bacana, ela te puxa para frente e impele para trás, e num movimento súbito, enquanto você ainda não se decidiu pela imensidão a frente ou explorar um pouco mais a informação recente de trocar a areia pelo mar, ela te engole.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

De como se comia melhor no passado

Não importa se ingeriam índices altíssimos de gordura trans, os filhos da classe média de 80 e 90 comiam bem melhor do que se come hoje. Bastava pedir ao pai, tia ou avó uma moeda, duas, no máximo, para ir à padaria comprar um pacote de biscoito, não um desses com gosto de açúcar esfarinhado, comprava-se um Passatempo.

Comer um Passatempo não era apenas comer, era um ritual composto por várias etapas. Separava-se o recheio do biscoito metodicamente, alguns adpetos alternavam entre entre biscoito e recheio, outros juntavam todo o recheio em uma bola monstruosa. Comer uma das partes na ordem errada era suficiente para dessacralizar todo um pacote.

Com o Kinder Ovo não era diferente, em pouco mais de uma semana conseguia-se completar a coleção, com exceção de um ou dois modelos que só saiam depois que você já tinha pelo menos cinco de cada um dos outros. Hoje as crianças têm que juntar dinheiro por uma semana para comprar um Kinder Ovo.

As primas também eram bem mais acessíveis, todos os domingos a família se reunia na casa dos avós para almoçar e nos fartávamos do peito e do lombo das primas mais desenvolvidas. A marcinha era a minha preferida, no início da puberdade, e, assim como passatempo, comer a Marcinha era um ritual, tinha que fazer as coisas na ordem certa, e, enquanto tudo acontecia, um primo vigiava se tias ou avós se aproximavam. Tirar uma peça de roupa na ordem errada poderia arruinar tudo. Mas a Marcinha foi ficando desinteressante e não faz mais falta, seria como fazer o ritual do Passatempo com um desses genéricos, não faria sentido e não faz falta. Mas o Kinder Ovo, ah! O Kinder Ovo é inadmissível!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Tirando as teias de aranha

Pois bem, eu tenho um texto para postar aqui, mas recuso-me terminantemente a fazê-lo sem antes escrevê-lo a tinta no caderninho comprado para tal fim.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

As palavras de conforto, quais são?

- As palavras de conforto, quais são?
- Pois não?
- Eu queria saber quais são as palavras de conforto, só isso.
- Não estou entendendo...

Assim se apresentou um homem a figura do escritor. Este ficou perplexo. Não que não entendesse a pergunta, entendera-a muito bem, o que não entendia era como alguém poderia fazer tal pergunta. E por que julgara o homem que o escritor estaria em posição de responder a pergunta? Não parecia uma piada, o homem a fizera a sério e insistiu:

- Você é um escritor, certo?
- É, mais ou menos, quero dizer, não gosto de ver isso como uma profissão...
- Mas escreve, não é?
- Escrevo, sim.

Pode ver um brilho de esperança no brilho dos olhos do homem. O escritor não sabia de sua busca. Ele já se sentara em carteiras nas classes de línguas, portuguesa e estrangeiras, como ouvinte nas classes de linguística, enviou cartas à poetas, compositores, sambistas, enveredou a noite e percorreu seu caminho nos esconderijos de boêmios, pseudointelectuais, mendigos, saudosistas e bêbados e apaixonados e bêbados apaixonados, teve discussões calorosas com filósofos, niilistas, senhoras do clube do livro e com loucos, deitou-se com muitas meretrizes e agora o faria todos de novo.

- Venho já há um tempo procurando saber quais são as palavras de conforto. Procurei em dicionários, de sinônimos primeiro, depois nos de antônimos, para ver se dava alguma luz. Procurei em enciclopédias, no google, na wikipédia e na desciclopédia. Procurei profissionais da área, professores de português e de outras línguas, linguistas, poetas, compositores, sambistas, boêmios, pseudointelectuais, mendigos, saudosistas, bêbados, apaixonados, filósofos, niilistas, senhoras do clube do livro, loucos, prostitutas... você é um deles, certo?
- ...
- Você trabalha, convive com isso, com as palavras. Você não é nenhum deles e mesmo assim pode ser todos usando apenas palavras, pode ser filósofo, lingüista ou meretriz louca bêbada apaixonada. Pode ser que não sinta o conforto da noite, como os boêmios ou os gatos, mas sabe dispor as palavras de uma maneira que faça com que acreditemos nelas, quero que me diga quais são as palavras de conforto, como devo usá-las.
- Por que me pede isso?
- Lágrimas.
- Como?
- Lágrimas em quantidade suficiente para se afogar nelas. Como Alice.
- Do que está falando?
- Alice bebeu o líquido do frasco, isso a fez crescer, se sentiu enorme. Por consequência maiores foram suas lágrimas e quando bebeu do segundo frasco e se sentiu menor, poderia mesmo ter morrido afogada em meio às lágrimas que já havia chorado quando grande.
- Por que está me dizendo isso.
- Eu sou o frasco. Alimentei um alguém a quem conheço, que me é muito precioso, fiz com que suas lágrimas crescessem lá dentro. Alice as expeliu, pelo menos. Alice se sentiu pequena em meio à torrente de tristeza do passado. Não essa pessoa. Ela nunca chorou suas lágrimas. Agora se sente menor e dentro de si guarda uma quantidade de lágrimas suficiente para afogar-se dentro de sua própria tragédia. Contribuí para isso. Quero me refazer. Preciso. Palavras de conforto me pediu a tal pessoa. Tudo que pude lhe oferecer foi o silêncio. Mas preciso das palavras. E você sabe das palavras, não é mesmo. Pois então diga a mim, por favor, que faço tudo que pedir.

Os lábios do escritor se mexeram. Nenhum som. Nada. Olhos melancólicos mirando o chão. Dois pares. O homem foi embora desiludido. Voltou a sua pessoa querida, encarou-a nos olhos. Quando esta ensaiou uma meia palavra com os lábios, sentiu o toque de um dedo. Calou-se. Engoliu as palavras engolidas. Foi acolhida por dois braços e um peito. Abrigada do mundo, no calor e escuro acolhedor, chorou mais lágrimas do que possivelmente poderia haver dentro de si. Enfim leveza.

O escritor sempre que se lembra do ocorrido sente um pouco de vergonha e permanece em silêncio. Nunca soube o que aconteceu ao homem. Criou um final feliz para a sua história, mas nunca encontrou as palavras de conforto. Eventualmente passa horas em frente à sua máquina de escrever, esperando que os botões venham de encontro aos seus dedos, revelando-lhe aquilo que nunca soube, mas sempre fingiu.



sábado, 17 de janeiro de 2009

Desacordo ortográfico.

As pessoas nem sequer adotaram o novo acordo ortográfico e injuriam-no à plenos pulmões para cima e para baixo. "acabar com a trema, vê se pode? agora vamos falar trankilo... e o hífen então, benquisto, tem lógica uma coisa dessa? E o pior, a crase, eu nunca soube muito bem onde usar, onde tinha e onde não tinha, mas é a coisa mais charmosa da língua a crase, não é?" E a crase nem sequer sofreu alterações no novo acordo ortográfico, mas sabe como é, você tem aquele primo que sempre dá problema, chega em casa chapado de maconha e um dia some dinheiro na casa, ninguém hesita em olhar torto para ele e logo objetos começam a voar. A bem da verdade, apenas uma minoria das pessoas sabia onde ia a trema, inclusimente, muita gente nem sequer sabia para que servia a trema e só foi saber agora com a reforma, e mesmo assim se sentiram ofendidos. Do hífen posso dizer o mesmo. Pois saibam os reclamões que a língua não passa de um monte de acordos decididos por um monte de gente que atribui significado a uma sequência determinada de sons ou símbolos e todo mundo sempre se deu muito bem assim, não fossem os acordos ortográficos, estaríamos escrevendo phosphóro até hoje, ou êle. Êle, não preciso nem dizer o quanto é indignante ter que colocar um circunflexo nessa palavra, não é!? Aliás, ruim mesmos são os desacordos da língua portuguesa, quando respondem a uma pergunta terminada em "não, é?" nunca sei se a resposta concorda com o "não" ou com a pergunta e sempre tenho de perguntar de novo

- Poxa, mas o filme foi até bom, não é?
- Não...
- Não que foi bom ou que não foi bom?

Isso não estabelecem na língua. Aliás, só é útil quando se quer fugir da verdade. E eu até tenho gostado desses últimos textos, estão até razoáveis, não é?

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